Viva a desobediência contra a censura

Além do natural autoritarismo e da truculência que lhe é peculiar, todo censor é um ridículo. Mede o mundo pela régua da sua miopia e pela visão estreita de quem usa antolhos. A melhor contribuição de um ministro pernambucano que nunca ouviu falar de Paulo Freire foi a de tentar censurar a autonomia da Universidade de Brasília (UnB). A reação veio à altura a que o fascismo merece. Antes mesmo de o curso criado pelo professor Luís Felipe Miguel ser aberto, já havia fila de espera.

Alvissareira é a notícia de que a Universidade Estadual de Maringá (UEM) oferecerá um curso com o mesmo conteúdo. Hoje são pelo menos 13 universidades, entre federais e estaduais que, indignadas com o autoritarismo e o aprofundamento das consequências do rompimento democrático, oferecem uma formação acadêmica sobre o golpe legislativo, togado e midiático, de 2016. A reação à tentativa de censura do ministro repercutiu no exterior. No dia 16 de maço haverá uma palestra na Universidade de Bradford, na Grã Bretanha, com o mesmo nome do curso da UnB.

O curso oferecido pela UEM terá o escopo mais ampliado que o pioneiro “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”, da UnB. O da universidade de Maringá terá como temas norteadores a “a América no século 21, conservadorismo e golpes na América Latina”. Além do Brasil, serão analisados os golpes de Estado no Paraguai, em Honduras e a influência dos Estados Unidos na América Latina, pós a ascensão do presidente Donald Trump.

Os cursos farão um profundo mergulho na história da formação da sociedade brasileira. Serão observados os retrocessos políticos, econômicos e sociais impostos à nação, desde a instalação do golpe de 2016. Suprimiu-se a democracia. Rasgaram a Constituição de 1988, ou seja, as leis que nos separam da barbárie, e seguem aplicando suas convicções e intuições contra cidadãos taxados de inimigos. Haja vista a perseguição eivada de erros legais e jurídicos, que é contra qualquer cidadão comum, que a qualquer momento pode ser acusado e condenado por um crime que não existiu.

A asfixia do Estado, por 20 anos, e a entrega de todos os capitais nacionais condenará o Brasil a ser uma reles colônia de países centro de poder. Não existe nação desenvolvida em que o Estado não tenha sido seu agente indutor. E o maior retrocesso social produzido pelo ministério de notáveis entreguistas de Temer foi o de reconduzir o Brasil ao Mapa da Fome, monitorado pela ONU, onde passou 28 anos e do qual o PT o retirou depois de quase 10 anos de luta.

O curso da UEM também é mais uma forma de enfrentar e denunciar o autoritarismo do governo Beto Richa, que apoia a camarilha Temer. Em 2017, ele impôs às universidades estaduais um sistemático programa de sucateamento, por meio da asfixia econômica. Uma inadmissível interferência na autonomia administrativa das universidades. O governador, sob feroz resistência das comunidades acadêmicas, submete-as ao sistema RHMeta-4. Em médio prazo, seis das mais destacadas universidades estaduais do País serão compradas pela iniciativa privada e transformadas em consórcios de diplomas.

Desde a compra de material de limpeza, à contratação de professores e oferta de cursos, passando por aquisição de material científico e pedagógico, qualquer aquisição ou contratação depende da análise de uma secretaria fiscal. A referência de qualidade das

universidades estaduais do Paraná é o resultado de pelo menos 60 anos de construção investidos pela sua população. Beto Richa condena o Estado ao atraso científico e tecnológico e descumpre com sua obrigação de garantir acesso à educação de qualidade. Oxalá a UEM não seja a única estadual a resistir aos golpes dentro do golpe.