Qual Nação queremos?

O que acontece no Brasil é desesperadamente humilhante. Todas as nossas condições de autodeterminar o desenvolvimento da nação para ser uma potência econômica estão sendo entregues aos interesses de outros povos. Nossas riquezas energéticas e empresas gigantescas serão utilizadas por nações centro de poder que investirão ainda mais no bem estar de suas sociedades. As populações, de lá, terão mais acesso à educação, saúde, lazer, tecnologia e distribuição de riqueza, tornando-as ainda mais ricas. Tudo isso acontecendo e as ruas estão mudas. A nação brasileira está sendo escancaradamente roubada, sem esboçar reação à altura.

E isso independe de acreditar ou não em partidos e nos políticos ligados a eles. É uma questão de se dar ao respeito, ser consciente de si. É inacreditável não ter havido uma explosão de indignação geral quando a camarilha Temer entregou a uma empresa estatal estrangeira de petróleo um campo do pré-sal, com potenciais 20 bilhões de barris. Os vendilhões da nação deram, por US$ 2,5 bilhões, o que vale mais de US$ 20 bilhões e é de propriedade da nação, das brasileiras e dos brasileiros que estão sendo roubados por um desgoverno que tomou o poder por meio de um golpe parlamentar, midiático e togado. Por cada barril levado embora, a estatal estrangeira paga US$ 1,25.

O rombo causado nos ativos dessa carteira de investimentos, ou seja, o prejuízo causado pelo presidente da estatal brasileira, Pedro Parente, é da ordem de 70%. Não satisfeitos, os golpistas deram uma isenção fiscal às petroleiras estrangeiras, de R$ 1 trilhão, em 25 anos. O País é esquartejado e entregue a quem menos pagar, como se fosse propriedade da elite que comanda a nação e cujo único projeto é ser colônia recordista e campeã mundial de produção de commodities. Uma casta social escravocrata, sabuja e que odeia o Brasil e a/os brasileira/os.

A OIT estima em bem mais que 7,4 milhões o número oficial de empregados domésticos e de crianças que trabalham no Brasil. Um exército de mão de obra com 83% composto de mulheres. Faz todo sentido o ataque da elite, em 2013, por meio de sua caixa de ressonância, a imprensa, contra a institucionalização da Carteira de Trabalho para as empregadas domésticas, após cerca de 130 anos da abolição da escravidão e da instauração da República Federativa do Brasil. A cordialidade escamoteia, aos olhos dos menos politizados, a luta de classes que vivemos e devemos enfrentar como tal. O Brasil é mundialmente famoso por sua abissal desigualdade social.

Do que é feito o brio das brasileiras e dos brasileiros? Em conluio com o Executivo, a Suprema Corte do País cassou a liminar que até então suspendia a venda do sistema Eletrobras. Um complexo de produção e distribuição de energia, com dezenas de hidrelétricas e usinas eólicas, mais de uma centena de termelétricas e milhares de quilômetros de linhas de transmissão, está sendo entregue ao controle de outras nações. A importância estratégica torna a Eletrobras um patrimônio de valor inestimável, mas todo o seu patrimônio, avaliado em cerca de R$ 400 bilhões, a quadrilha que assalta o Brasil entrega por R$ 20 bilhões. Esse valor não paga uma única usina da empresa.

Enquanto não houver um sistemático levante popular contra esses crimes e outros mais, o golpe avançará em velocidade e virulência, a cada dia maior. De fato, a justiça é inatacável e sobre isso concordamos. Já o Judiciário, em suas decisões e manifestações, se revela um microscópico e nefasto traidor. Ora como justiceiro caçador de recompensas, ora como despachante de luxo das nações centro de poder. Participa de convescote com empresas bilionárias que estão comprando o Brasil, num claro sinal de que seu lado não é o mesmo dos interesses gerais de quase a totalidade dos 207 milhões de brasileiras e brasileiros.

Mais de 80% da população não têm mais a quem recorrer, quando todos os poderes da República e seus órgãos de fiscalização e controle traem justamente quem é a razão de suas existências. Nesse sentido, tornam-se ainda mais importantes os comitês populares, dos quais tive o prazer e a honra de participar da instalação de alguns. Sejam protagonistas da rebeldia, em suas ruas, em seus bairros e cidades. A sociedade deve ser provocada e os golpistas – elite, Poderes da República e mídia – devem perceber, nas ruas, que esse contingente populacional não será prejudicado para atender à sanha incontinente de acumulação dos 15% que detêm os meios de produção.

Somente uma população informada e consciente do seu País é capaz de agir uníssona diante do assalto à nação, a direitos básicos conquistados com a luta de muita/os trabalhadora/es e estudantes que deram suas vidas, ao longo de uma história mal contada, segundo a qual havia empatia entre o escravo e o escravizador. O golpe de 2016 está destruindo os poucos avanços dos governos do PT e a possibilidade deste País ser soberano. Não nos resta outra saída senão as ruas. Os comitês devem aproveitar da pluralidade de que são formados e dar asas à criatividade e contundência de desobediência e rebeldia civil. Às ruas.

Enio Verri, deputado federal pelo PT do Paraná.