Há 50 anos, Passeata dos 100 Mil coroava luta dos estudantes

A Cinelândia despertou mais cedo naquele 26 de junho de 1968. Cravado no centro do Rio de Janeiro e rodeado por teatros, cinemas, bares e restaurantes, o local que era (e ainda é) o símbolo por excelência da noite carioca dava lugar, há exatos 50 anos, para clima soturno e olhares insurgentes de artistas, intelectuais, músicos e estudantes. Milhares de estudantes. Entre eles, um “velho conhecido” das ruas: o estudante de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (antes Universidade do Brasil) Franklin Martins, uma das vozes fortes da Passeata dos 100 mil.

Maior manifestação popular desde o início da ditadura militar, a Passeata é, segundo Franklin, resultado de sucessivas lutas lideradas por estudantes desde 1º de abril de 1964. Atos contra a repressão e a perda de direitos já tomavam conta do ambiente nas universidades, mas ainda sem apoio maciço da população. Todos eles, claro, sempre com a violência à espreita. “Os estudantes nunca saíram das ruas. Desde 1964 nós lutávamos por muitas causas que incomodavam o regime. Mas o amadurecimento foi gradual e reorganizado ano após ano. Em 1968, tínhamos em pauta muitas outras lutas e, antes mesmo de junho, nosso enfrentamento já tinha tomado as ruas”, lembra.

A Passeata dos 100 mil, prossegue Franklin, “coroou uma luta que vinha desde o início do regime. O dia 26 de junho de 1968, para nós começou bem antes”, recorda.

Antes, entre outras coisas, leia-se o dia 20 de junho daquele mesmo ano, hoje conhecido como Sexta-Feira Sangrenta, e que resultou na morte de 28 pessoas durante protesto contra repressão fez o medo tomar conta do ambiente.

Por isso, a ideia de um novo ato poderia não ser uma boa ideia. Mas os líderes estudantis – entre eles Franklin – decidiram seguir nas ruas. E, em poucas horas, a Cinelândia voltava a ser o lar por excelência das almas rebeldes do Brasil pós- golpe. Além de estudantes, músicos como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, e intelectuais como Zuenir Ventura e Helio Pellegrino, caminhavam lado a lado com outros 100 mil brasileiros.

“Jamais imaginamos que a passeata tomaria aquela proporção. E a violência estava cada vez mais forte. Lembro de um tiro ter atingido uma vidraça atrás de mim e nunca vou esquecer das cenas de terror que testemunhei durante aquele ano. Mesmo assim, nos organizamos rápido e a Passeata foi um grande marco na luta estudantil não só no Brasil como no mundo”, prossegue Franklin.

É provável que nem mesmo a polícia esperasse tamanha mobilização e a Passeata estranhamente seguiu sem maiores problemas da Cinelândia até a Assembléia Legislativa, onde cartazes, faixas e discursos inflamados afrontavam as atrocidades do regime. “Abaixo a Ditadura. Poder para o Povo”, lia-se por todas as partes.

Não houve nem tempo para comemorar. Logo após a marcha, o então presidente Costa e Silva convocou os líderes estudantis para uma “conversa” sob a justificativa de que governo e população tinham de chegar a uma trégua. “Obviamente ele nunca cumpriu o que prometeu. Fomos a Brasília em vão e a repressão que já era grande só aumentou”, lamenta.

A luta por liberdade e direitos custou a Franklin dois meses de prisão de meados de outubro até 12 de dezembro, um dia antes da consolidação do Ato Institucional Número 5 (AI-5), o mais duro dos ataques da ditadura às já precárias instâncias democráticas em vigor no Brasil à época. “Aquilo nos atingiu em cheio, mas não houve desânimo, tampouco arrependimento por todas as nossas lutas. Infelizmente, o AI-5 tornou ilegal qualquer manifestação ou greve e violência definitivamente tomou conta do país”.

Durante quase toda a década seguinte, o AI-5 virou o símbolo de uma guerra travada contra todos os brasileiros que não concordavam com o regime. “O Brasil só volta a ver algo com a mesma dimensão a partir de 1977, com as grandes greves, o surgimento de grandes líderes populares como Lula e uma nova onda de manifestações contra a Ditadura”, conclui Martins.

Meio século depois, a Passeata ainda reverbera nas manifestações pela democracia no Brasil. Ou, como define Zuenir Ventura, “1968 nunca terminou”.

Por Henrique Nunes da Agência PT de Notícias