Gleisi: Resistência é palavra feminina

Há 100 anos, a Revolução Russa nascia demarcada pela ação transformadora das mulheres. Por suas lutas contra os desafios da época, muito semelhantes aos atuais, seu idealismo revolucionário e pela ampliação da participação da mulher na política e nos espaços de poder e de decisão. Quando a sociedade se distancia dessas bandeiras, ela se desumaniza. Perde na capacidade de enxergar e resolver problemas coletivos, abrangentes e se torna palco de competitividade e de disputas parciais. Vira uma zona insuportável de conflitos.

Todos nós precisamos da participação das mulheres na política para equilibrar forças, tornar essa representação mais justa e corrigir as distorções na tomada de decisões que afetam a todos. Transformar começa pela participação. São nos encontros, nos conselhos de política pública, nos partidos, nos sindicatos, movimentos sociais, meios de comunicação, nos cargos eletivos, enfim, nos espaços que a mulher ocupar, que as mudanças acontecem e a história da humanidade é reescrita.

No último final de semana, o Partido dos Trabalhadores (PT) realizou seu encontro nacional de mulheres, com a finalidade de renovar a direção da Secretaria de Mulheres do Partido, mas também para atualizar, reafirmar e redefinir as bases do nosso protagonismo justo e necessário. Mais de 700 delegadas saíram de seus municípios em todos os cantos do país e vieram a Brasília para fazer esse debate e demarcar, mais uma vez, que “resistência” é uma palavra feminina. A jovem indígena, Anne Karolyne Moura, da região Norte do Brasil, foi eleita a nova secretária nacional de Mulheres do PT.

Nas palavras do presidente Lula e no texto da carta enviada pela presidenta Dilma ao encontro, que tive a honra de ler, há um clamor pelo protagonismo das mulheres. Como bem lembrou a presidenta legitimamente eleita, foi esse protagonismo quem ditou o ritmo das mudanças e das conquistas sociais nos governos do PT: a sanção da Lei Maria da Penha em 2006, a criação da secretaria nacional, com status de ministério, a criação da Lei do Feminicídio em 2015, o fortalecimento da rede de proteção, afirmação de um pacto nacional e as ações do programa “Mulher Viver sem Violência”, que efetivaram mecanismos para o estabelecimento de uma política de tolerância zero para a violência contra as mulheres, capilarizada nos estados e municípios, entre outras conquistas.

“Antes de nós, não existiam o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida que, ao dar à mulher a titularidade do cartão e da escritura do imóvel, empoderaram milhões de brasileiras até então subjugadas e excluídas. Antes de nós, as trabalhadoras rurais nem mesmo tinham documentos de identidade, ou acesso a crédito. Antes de nós, não havia Pronatec, ProUni, Fies, que tantas oportunidades abriram para as brasileiras, que as aproveitaram sempre e bem”, disse a presidenta Dilma na sua carta ao encontro do setorial de mulheres do PT.

Estamos novamente diante de momentos difíceis e desafiadores à nossa participação. O golpe trouxe o desmonte das políticas públicas para as mulheres e também das políticas sociais e dos avanços à classe trabalhadora que foram implementados especialmente nos governos do PT. Veio com uma voracidade desesperada, carregado de tanto ódio, intolerância e truculência, que pode muito bem ser comparado ao escárnio misógino e raivoso da violência contra a mulher.

Das barbáries que ceifam vidas ou que impõem oficialmente um estado de poder excludente, discriminatório e injusto.
Se resistência é palavra feminina, a solidariedade também é. Convido todas as companheiras, companheiros e a sociedade em geral a manifestarem seu apoio e se unirem em uma corrente de solidariedade à ex-ministra Eleonora Menicucci. Ela está sendo processada e, inclusive, já foi condenada a pagar multa porque ousou se indignar e criticar o ator Alexandre Frota, bem como seu encontro com o ministro da Educação do governo ilegítimo. Em um programa de TV, Frota chegou a admitir o crime de estupro contra uma “mãe de santo”, ao ponto dela desmaiar com a violência sofrida.

Tão deprimente quanto a vulnerabilidade da nossa sociedade diante da veiculação desse conteúdo em programa de TV é saber que a condenação da companheira, ex-ministra e grande defensora das políticas para as mulheres, responsável direta por inúmeras transformações sociais e conscientização, veio do julgamento de outra mulher. Temos muito que fazer e pelo que lutar. A cada passo que a sociedade retrocede, precisamos correr e acelerar na luta por mudanças, no avanço da nossa própria afirmação e consciência de gênero e também na ocupação de espaços importantes para ditar o ritmo do desenvolvimento social e humano do País.

*Artigo inicialmente publicado no Blog do Esmael

Gleisi Hoffmann é senadora e presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores