Desde 89, mídia tradicional se coloca contra PT, diz pesquisador

Em uma análise minuciosa de editoriais e manchetes dos grandes jornais brasileiros após a redemocratização, o cientista político Fernando Azevedo evidenciou o anti-petismo da imprensa brasileira. O resultado foi detalhado no livro ”A grande imprensa e o PT (1989-2014)”, lançado em setembro.

Para construir seu livro, Azevedo analisou todos os editoriais que falavam do PT publicados nos jornais Folha de S. Paulo, O Globo e Estadão entre 1989 e 2014. E os classificou como negativos ou positivos ao partido. A maioria, segundo ele, é negativa.

Para Azevedo, a análise evidencia o caráter ideológico desses veículos, alinhados a uma visão liberal no campo econômico e conservadora no campo político. “É um posicionamento ideológico. Compartilham crenças liberais e se posicionam no campo antagônico ao do PT, que é um partido de centro-esquerda e que acredita em um Estado forte”, explica o pesquisador.

E, apesar do PT ter surgido em 1980, esse alinhamento da imprensa com uma pauta da direita é muito mais antigo. Segundo Azevedo, a imprensa apenas segue o mesmo trilho da linha editorial que perseguia ainda na era Vargas.

“Os jornais estão onde sempre estiveram, apoiaram o golpe militar, apoiaram a deposição da Dilma. Continuam num mesmo trilho, na mesma toada há muito tempo”, diz. No passado, a imprensa apoiou a UDN, foi contra o governo de Getúlio Vargas e o de Jango Goulart. Na redemocratização, apoiou Fernando Collor e, desde então, os candidatos do PSDB.

Para Azevedo, nos textos informativos dos jornais, há um relativo equilíbrio. O problema é que os jornais brasileiros são muito opinativos e, nesses espaços, a cobertura acaba privilegiando os partidos de direita e as ideias neoliberais.

“A consequência é que temos uma assimetria informacional no processo político. O Brasil tem um sistema de mídia concentrado que apresenta baixa diversidade política”, explica. O que é prejudicial para a democracia diz o pesquisador.

“Um dos elementos básicos da democracia são as fontes alternativas de informação. Elas são muito restritas no Brasil e isso leva a um déficit de informação”, diz ele.

Um fator que contribui para essa intensa concentração é a propriedade cruzada dos meios de comunicação. Os mesmos grupos econômicos estão a frente de diversos meios de comunicação. O grupo Globo, por exemplo, tem vários canais de televisão, o jornal O Globo, além de diversas revistas, como a Época.

Para Azevedo, é essencial que se faça uma regulação dos meios de comunicação, mas a ideia encontra forte resistência na própria mídia. “Os grandes grupos reagem e confundem isso com uma tentativa de ataque à liberdade de expressão”, diz ele.

Na última semana, Azevedo encontrou-se com o ex-presidente Lula. Na ocasião, entregou o livro ao líder. Segundo Azevedo, Lula também criticou a parcialidade da mídia brasileira, e reafirmou a importância de um projeto para regulamentar e democratizar o setor.

Na atual conjuntura política, no entanto, Azevedo não vislumbra uma mudança. “Quando você vê a composição do Congresso, você vê que não tem a menor possibilidade de enfrentar esse tema”, aponta. Os próprios congressistas são, muitas vezes, proprietários de veículos de comunicação ou de afiliadas locais da Globo, que reproduzem a sua programação.

Da Redação da Agência PT de Notícias