A elite brasileira é a mais atrasada do mundo

Na série “House Of Cards” à brasileira, tem-se a impressão de existir um Brasil de duas dimensões. Numa, com o “Supremo, com tudo”, ao arrepio da lei, inclusive, dá-se o espetáculo Lava Jato, responsável por um prejuízo à economia nacional muito maior ao que o desviado na Petrobras. Vale tudo, de Power Point colegial, matéria do jornal “O Globo”, passando por delação torturada sem provas, documento falso e, pasmem, corrupção, como acusa o advogado Rodrigo Tacla Duran. Tudo às escâncaras, aos olhos de todo o judiciário e do MPF, com a diuturna propaganda de caça ao Lula, veiculada pelas famílias que controlam os “Novos Cães de Guarda”.

Do desviado da Petrobras, a Força Tarefa anunciou, em dezembro, com pompas e circunstâncias, a devolução de R$ 654 milhões à Petrobras. Já o prejuízo à economia, causado pela Lava Jato, passa dos R$ 140 bilhões. A operação é responsável pelo fechamento de pelo menos 50 mil dos mais de 80 mil empregos diretos da indústria naval e pelo desemprego de cinco a sete milhões, em toda a cadeia naval, de petróleo e de gás. Aos invés de prenderem os malfeitores, mas manter o funcionamento das empresas, os brilhantes membros da Força Tarefa causaram uma paralisia que o Brasil levará mais de 10 anos para se recuperar.

Na outra dimensão está um Brasil que assiste, dócil e cordato perante, tanto à acusação, ao julgamento e à condenação de um cidadão, sem o cometimento de crime, quanto à entrega da soberania aos interesses do capital financeiro. É um País submisso a uma ordem segundo a qual o Exército da nação mata favelado, majoritariamente de pretos. A população é mantida obnubilada pelos discursos, ora conformistas, ora criminalizadores da pobreza e ora apaziguadores, repetidos pelos veículos de comunicação. É o Brasil que não tem a quem recorrer, porque o Judiciário não cansa de demonstrar que tem lado e não é o da justiça.

Esse movimento é feito pela e para a elite mais bisonha da face da Terra. Desde 1500, tanto a gigantesca despensa brasileira quanto os africanos escravizados, produtores das riquezas desta terra, foram tratados com a fidalguia europeia que saqueou toda a América Latina. Essa é a elite que se perpetuou na posse de riquezas energéticas e no poder do Estado em determinar os caminhos da nação. Pela compra sistemática de personagens com poderes de decisão, nos Três Poderes, a elite conduz a política e a economia do País. Ela se beneficia de recursos brasileiros para os seus interesses, em geral, no mercado financeiro. Um mundo onde 85% dos trabalhadores não entram.

O caráter venal e a mentalidade vira-lata da nossa elite é uma das às piores tragédias desta nação. O Brasil é conduzido por uma gente, não mais que 15% da população, que se compraz em submeter a autodeterminação brasileira aos interesses de nações centro de poder. Ela não se importa que o Brasil seja eternamente fornecedor de matéria-prima, apesar de toda a riqueza energética, a capacidade intelectual e as empresas estratégicas que possui. Isso afeta socialmente a vida de mais de 200 milhões de brasileiras e de brasileiros que não pensam como a elite. O golpe contribui muito para a Casa Grande não perder espaço político para a Senzala.

Lula é kafkianamente caçado porque essa elite atrasada e mesquinha tem medo de avanço civilizatório. Isso significa dividir espaço e ferramentas com alguém que saiu da favela, apropriou-se das chaves de acesso e passou a disputar espaço de decisão

política, antes ocupado quase que exclusivamente pela elite, nos últimos 518 anos. O que o Partido dos Trabalhadores fez, em 13 anos, foi bem pouco em vista do necessário para mitigar minimamente a indecente qualificação de nação mais desigual do mundo. Um País onde meia dúzia de pessoas concentra a mesma riqueza que metade dos mais de 200 milhões de brasileiros.

O maior conhecimento de avanço civilizatório que a elite brasileira tem é o de admirar e de almejar o das nações centro de poder. Portanto, ela jamais vai compreender o que é a destinação para outros fins, do “balde grande”. É um balde muito popular em casa de brasileiros que vivem no semiárido e o utilizavam para acumular toda a água que se possa captar e, a partir dele, servir a casa. Recente notícia revela que mais de um milhão de brasileiros, da Paraíba e de Pernambuco, passarão a contar com a perenidade do abastecimento de água, como consequência da obra de transposição do Rio São Francisco, feita pelo PT. A vida na região não mais será organizada segundo a estiagem.

O problema, para nossa vergonhosa elite, é que a população não esquece de quem foi o presidente que mais construiu escolhas técnicas e universidades; que mais gente pobre, cuja maioria é preta, incluiu na educação; que mais estímulo deu ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia. A elite não suporta saber que mais de 100 mil estudantes participaram, apesar dos erros, do maior programa de intercâmbio científico da história deste País. O Ciência Sem Fronteiras permitiu a estudantes brasileiros a aproximação e mesmo a participação no desenvolvimento de tecnologias que vão desde a área da música, passando pela saúde, à previsão do comportamento ambiental.

A elite sabuja até agora não entendeu a ousadia do torneiro mecânico em construir submarino nuclear para defender o pré-sal, entre outras riquezas; desenvolver uma tecnologia própria de enriquecimento de urânio, vasto minério de nosso subsolo, e de construir um dos três aceleradores de partículas de luz síncrotron do mundo, por meio do qual é possível observar nanopartículas. Durante os séculos que esteve exclusivamente à frente deste País, a elite ociosa e entreguista não fez pela maior parte da população brasileira metade do que Lula e o PT fizeram. Sim, é preciso dizer seu nome infinitas vezes. A elite brasileira é a pior inimiga do Brasil.

A perseguição a Lula não é inaudita. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart já a sofreram. Toda vez que alguma Marielle se levanta em nome de reformas minimamente justas é caçada pela elite que está no poder desde as Capitanias Hereditárias. A Lava Jato se tornou uma farsa. A intimidade da Força Tarefa com órgãos de fiscalização e controle dos EUA é um dos escândalos que coloca a operação a pique. A relação nada transparente da cooperação foi admitida pelo procurador-geral adjunto dos Estados Unidos, Kenneth Blanco, durante palestra promovida por entidade apoiada pelos veículos de comunicação aliadas ao golpe de 2016.

O STF não se apequenar, ainda mais. Fugir da responsabilidade de julgar o Habeas Corpus após condenação em segunda instância, que afeta não apenas Lula, é assinar confissão de comparsaria do “tropeço da democracia”. Há incontáveis casos em tramitação na Suprema Corte, apelando para o cumprimento da Constituição Federal. Porém, o cenário é desanimador. Um caso sem cometimento de crime chegou, observado por todos os atores jurídicos do País, inclusive pelo Conselho Nacional de Justiça, chegou à instância que referendou o golpe de 2016. Não faz diferença se ele tem culpa, ou não. As cartas estão marcadas e o espaço para fazer a defesa da justiça, da

democracia, do companheiro Lula e da autodeterminação de decidir como se desenvolver é a rua.

*Enio Verri é deputado federal pelo PT do Paraná.